A política e o político
- escutasneplev
- 16 de mar. de 2022
- 3 min de leitura
As palavras “política” e “político” circulam entre nós cotidianamente, produzindo sentidos em várias direções. Você já se perguntou qual a diferença entre o político e a política? Quando nos fala sobre a questão, em um de nossos vídeos do projeto Escutas, a doutoranda do PPGL/UFPE, Lucirley Alves, define essa diferença, de modo muito simples e objetivo: a política é uma estrutura composta a partir dos partidos políticos, em que seus representantes ocupam cargos de poder nas diferentes esferas: nacional, estadual e municipal. Nas palavras de André Corten (1999, p. 37), “a política é a área funcional, especializada, na qual, através das instituições políticas, se realizam atividades políticas”.
Já o político, diz-nos o mesmo autor, “permanece frequentemente indefinido”, o que se deva, talvez, ao fato de ser o político algo mais abstrato e que depende da posição assumida por quem está falando, do lugar de onde ele fala, para quem se fala e do objetivo final dessa fala. Não estamos falando do político candidato, ou seja, daquele que exerce a política nas instituições. Estamos definindo o político a partir das relações de forças que se materializam, em nossa sociedade, de formas diversas, e que vão fazer eco também na forma de produzir sentidos. Nossas palavras, nossas ações, nossas escolhas estão e estarão, sempre, atravessadas pelo político, ainda que não se relacionem de forma direta com as instituições políticas nem com um partido político específico.
O político, portanto, atravessa todas as nossas práticas e é o motor que faz existir a política em si. O exercício da política se coloca como fundamental em nossa sociedade, “dizer que o homem vive politicamente”, diz Francis Wolff (2007, p. 60), “equivale a dizer que o homem não poderia viver isolado, como a maioria dos animais”. É pelo exercício da política que construímos os rumos que vão seguir a educação, a saúde, a ciência, as relações de trabalho, entre outras tantas questões que regem a vida em comunidade. E essa arena de disputas se realiza por meio do discurso político. Mas não apenas por ele, já que, como nos diz Orlandi (2014, p. x): “O político está no fato de que tanto os sentidos como os sujeitos são divididos: divididos em si e entre si”.
Agora que já entendemos a diferença entre a política e o político, vamos ver como os termos corrupção e democracia se relacionam com eles.
Comecemos pela democracia. Você sabia que a palavra democracia vem do grego demo + kratos que, respectivamente, traduzem-se como povo + poder? Nessa direção, podemos dizer que exercer a democracia é dar poder ao povo e, portanto, exercer a política é também assumir um papel de poder na sociedade em que se está inserido.
O que acontece, muitas vezes, é que somos levados a reduzir o sentido de democracia ao ato de votar, sem compreendermos que a participação na vida política exige um compromisso maior de cada uma/um de nós, no sentido de nos comprometermos com um projeto de sociedade e cobrarmos daqueles que escolhemos como nossos representantes atitudes e ações coerentes com o projeto que representam. Não só dos políticos é preciso cobrar, é muito importante pensarmos se nossas ações e práticas cotidianas são efetivamente democráticas e o que estamos fazendo para alcançar a igualdade de direitos para todos os sujeitos.
Ao pensar sobre isso, sobre o exercício diário da democracia, podemos nos perguntar sobre a corrupção. Para muitos, falar de política é também falar sobre corrupção, pois é comum uma demonização da política na sociedade, isso porque o histórico mostra diversos casos de corrupção. Reduzir a política à corrupção produz prejuízo para a sociedade que acaba dizendo que “não gosta de política”. E isso tem implicações sérias porque a organização da sociedade depende da política! Nossa prática política vai além do voto: ela se inicia com a cobrança de políticas sociais, o que só é possível por conta do sistema democrático.
Portanto, a democracia traz para todos os cidadãos direitos e deveres, os quais não se limitam, por exemplo, à ação de votar. Para além da escolha de representantes, a democracia traz a "liberdade" de ir e vir, algo não possível em um sistema repressivo e antidemocrático.
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